Poesias e prosas do escritor amazonense, que faleceu nesta sexta-feira (14), enaltecem a alma humana, a natureza, a Amazônia e suas particularidades
O poeta amazonense Thiago de Mello, de 95 anos, fez sua passagem, nesta sexta-feira (14), e agora segue vivo em seus versos e prosas que enaltecem a alma humana, a natureza e a Amazônia. Imortalizado por dezenas de obras traduzidas para mais de 30 idiomas, Mello é celebrado e frequentemente recitado pelo poema “Os Estatutos do Homem”, publicado em 1965 em plena ditadura no Brasil.
“Fica decretado que os homens / estão livres do jugo da mentira. / Nunca mais será preciso usar / a couraça do silêncio / nem a armadura de palavras. / O homem se sentará à mesa / com seu olhar limpo / porque a verdade passará a ser servida / antes da sobremesa.", diz o Artigo V da célebre obra, escrita em 1964 em Santiago do Chile, quando Mello exercia o cargo de adido cultural na Bolívia e Chile e o golpe militar ocorria no seu país de origem.
Antes de escrever sua obra mais famosa, Thiago de Mello circulou nas décadas de 1950 e 1960 entre autores brasileiros renomados como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e José Lins do Rêgo. Neste período, lançou as poesias “Silêncio e Palavra” (1951), “Narciso Cego” (1952) e “A Lenda da Rosa” (1956).
Na obra “Faz Escuro, Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar” (1966), o texto de “Os Estatutos do Homem” também foi inserido. O verso deste livro, que faz parte do poema “Madrugada Camponesa” (1965), virou tema da 34ª Bienal de São Paulo, realizada em 2021, como homenagem a Thiago de Mello.
Defensor contumaz dos Direitos Humanos e da preservação da Floresta Amazônica, o grande poeta do Estado era engajado politicamente e encarou provações durante o regime militar imposto no País, entre os anos 1964 e 1985, a ponto de ser preso. Na época, Mello precisou viver em exílio na Argentina, Portugal, França, Alemanha e Chile, onde selou uma amizade e parceria literária com o ganhador do Nobel de Literatura, o escritor Pablo Neruda, que teve obras traduzidas pelo amazonense.
Ainda na ditadura e longe de casa, Thiago de Mello recebeu um prêmio pela Associação Paulista dos Críticos de Arte pelo livro “Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida” (1975). Pela obra, o poeta ficou reconhecido internacionalmente como um defensor dos Direitos Humanos. Mello só voltaria ao Brasil após o fim do regime ditatorial. Ele ficou um período em sua cidade natal, Barreirinha (AM), e depois se estabeleceu na capital Manaus, que homenageou na obra “Manaus, Amor e Memória” (1984)
Homem do interior e apaixonado pelos costumes, cultura e as belezas naturais do Amazonas, Thiago de Mello tornou a região que amava conhecida no mundo através das suas palavras escritas e traduzidas. Suas obras que retratavam a vida na natureza pulsante do Estado, ganhavam formas em poesias e prosas, como “Mormaço na Floresta” (1984), “Pátria da Água” (1991) e “Amazônia - A Menina dos Olhos do Mundo” (1992).
No ano passado, Mello teve sua última obra, "Notícias da Visitação que Fiz no Verão de 1953 ao Rio Amazonas e seus Barrancos", publicada pela Editora Valer. E apesar de ter sido lançado recentemente, o livro é um relato antigo do poeta que ainda era inédito para o público.
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