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Surto de Covid atinge 70% dos indígenas em aldeias de recente contato no Amazonas, informa O Globo

Amazonas | 28/02/2022 - 10:23
Por: Redação Canal92AM*
Foto: Vitor Goes/Acervo CGIIRC/Funai/2014

De 103 indígenas da etnia Korubo, que vivem entre os rios Coari e Ituí, no município de Atalaia do Norte, 75 testaram positivo para a doença nas duas últimas semanas

Um surto de Covid-19 entre os indígenas Korubo, no Vale do Javari, no Amazonas, acendeu o alerta para o risco iminente de contaminação de outros grupos de recente contato existentes na região, onde há maior concentração de povos isolados do mundo. O GLOBO apurou que mais de 70% dessa etnia (75 de 103 indivíduos) que vive entre os rios Coari e Ituí, no município de Atalaia do Norte, testaram positivo para a doença nas duas últimas semanas.

A contaminação dos Korubo põe em xeque o plano do governo federal de combate à Covid nas aldeias e comprova que a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) falharam diante da determinação dada há cerca de dois anos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de instalar barreiras sanitárias em locais estratégicos.

Esses são os primeiros casos de coronavírus registrados desde o início da pandemia entre os Korubos, cuja cobertura vacinal não está completa. A denúncia sobre as contaminações consta em ofício enviado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) à Funai e à Sesai, vinculadas ao Ministério da Justiça e da Saúde, respectivamente, após relatos dos próprios Korubos que mantêm comunicação com a entidade.

A Univaja , no entanto, foi ignorada pelos órgãos e acusa o governo de falta de transparência. A Sesai admite o surto e diz que os casos estão sendo monitorados.

O GLOBO teve acesso também a um áudio em que um tradutor Korubo relata a situação nas aldeias próximas do Coari, onde vive o grupo de mais recente contato. Ele confirma os casos de Covid e diz que os indígenas contaminados apresentaram, até o momento, sintomas “moderados” da doença. 

Na última sexta-feira, o drama dos Korubo foi discutido na Sala de Situação criada pelo STF para atender os povos isolados na pandemia. Representantes do governo, Funai e Sesai, estavam presentes e foram questionados sobre a crise sanitária por entidades indígenas.

As presenças de invasores na região, além dos próprios agentes da Sesai e demais indígenas que circulam por Atalaia do Norte e retornam às aldeias sem cumprir a quarentena de 14 dias como determina os protocolos sanitários são apontadas como vetores e possíveis agentes transmissores da doença que afeta mais da metade dos Korubos.

“Precisa haver uma transparência, uma preocupação do governo e das autoridades sanitárias de se entender como se deu a contaminação que agora atinge esse grupo de recente contato, que deveria estar recebendo uma atenção mais do que especial de proteção de barreiras e fiscalização justamente por ser o mais vulnerável”, ressalta Leonardo Lenin, indigenista do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi).

A Sesai diz que para entrar no território do povo Korubo, os profissionais são testados e seguem um rigoroso protocolo de saúde. "São 14 dias em quarentena na cidade de Atalaia do Norte, além de manter o calendário vacinal em dia, com as duas doses e o reforço".

No total, de acordo com o levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 1.283 mortes ocorreram em função da Covid nas aldeias e em contexto urbano desde o início da pandemia entre 162 povos afetados em cerca de 70 mil casos.

Risco de genocídio

O que preocupa as entidades é o fato de esses indígenas contaminados terem acesso direto a outros korubos que vivem no Coari, recém contatados em 2019 e considerados ainda mais vulneráveis por terem resposta imunológica menos eficiente para combater infecções virais, como o coronavírus, e bacterianas. Há ainda na região um grupo da mesma etnia que vive em situação de total isolamento e, portanto, não foi vacinado.

O coordenador da Univaja, Beto Marubo, diz que a contaminação traz grande preocupação e não descarta o genocídio de grupos de isolados, caso o vírus se prolifere floresta adentro.  Ele culpa a Funai por não cumprir o que fora determinado pelo relator do caso no Supremo, ministro Luis Roberto Barroso, na ação que cobra medidas do governo.

Quatro versões do plano foram rejeitadas por Barroso, que viu “profunda desarticulação” do estado para conter a Covid-19 entre indígenas, mas homologou parcialmente o plano crente que seria levado a cabo suas determinações.

Procurada, a Funai diz que mantém o Plano de Enfrentamento à Covid-19 “em conjunto com vários órgãos governamentais, incluindo a Sesai, com a qual atua em parceria”. Questionada sobre o que saiu de errado no plano diante das contaminações, o órgão devolveu a questão para a Sesai.

“Dados sobre a saúde indígena devem ser solicitados junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/Ministério da Saúde), que possui a competência institucional de coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas e todo o processo de gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) no Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz a nota que ignora a instalação de barreiras sanitárias.

Cobertura vacinal

De acordo com a Sesai, os primeiros casos de Covid-19 entre os indígenas da etnia Korubo ocorreram no último dia 14 de fevereiro, no Polo Base Médio Ituí, e foram notificados pela Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena. “No dia 15 de fevereiro, o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena do Vale do Javari) enviou imediatamente a Equipe de Resposta Rápida para avaliar o cenário epidemiológico nas aldeias”, diz o órgão.

Até o momento, dos 75 casos confirmados entre os korubos, 43 se encontram em cura clínica e 32 seguem em monitoramento diário pelas equipes de saúde, todos “sem apresentar sintomas de síndrome gripal”, afirma a Sesai. O órgão diz ainda que os índices de vacinação contra a Covid-19 em pessoas acima de 18 anos, até o dia 21 de janeiro, no Vale do Javari, são de 87% para a primeira dose; 82% para a segunda; e 21% para a terceira. No entanto, admite que entre os korubo ainda não foi aplicada a terceira dose.

Já entre os indígenas mais jovens do Vale do Javari a situação é ainda mais delicada. Nenhum adolescente de 12 a 17 anos recebeu sequer uma dose do imunizante.

*Com informações do jornal O Globo

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