Manaus, 31 de May de 2026   |  

Superlotação em unidades de saúde de Manaus alerta para risco de novo colapso

Amazonas | 13/01/2022 - 18:35
Por: Diogo Rocha & Natasha Cintra
Foto: Michel Dantas/AFP

Registros em vídeos e fotos mostram centenas de pessoas da capital do Amazonas aguardando quase três horas para serem atendidos; SPAs e UPAs estão com fluxo intenso de pacientes com síndromes gripais

No mês que se completa um ano do colapso da saúde no Amazonas, com a crise do oxigênio hospitalar em Manaus no dia 14 de janeiro de 2021 sendo o ápice da tragédia, as redes pública e particular enfrentam uma nova sobrecarga.

Nos últimos dias, a superlotação registrada em unidades de saúde da capital do Estado, como UBSs e SPAs, hospitais e prontos-socorros, acendem o sinal de alerta sobre uma possível falta de capacidade do poder público para atender a demanda crescente de pacientes. O aumento no número de casos de Covid-19 e síndromes gripais, a maioria relacionada a Influenza A (H3N2), está trazendo preocupação à população e às autoridades.

Nas redes sociais, vídeos e fotos de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e Serviços e Unidades de Pronto Atendimento (SPAs e UPAs) superlotados, em Manaus, viralizaram (veja os vídeos no final da matéria).

Conforme o último boletim diário da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), do dia 12 deste mês (quarta-feira), Manaus apresenta taxas de ocupação hospitalar, na rede pública, de 83% para leitos clínicos GERAL, que não inclui apenas os casos de Covid, de 69% para leitos de UTI GERAL e de 92% para sala vermelha GERAL.

Na rede privada da capital, as taxas de ocupação ficam em: 78% para leitos clínicos GERAL e 83% para leitos de UTI GERAL. As dez vagas na sala vermelha, que é destinada a pacientes que necessitam de cuidados e vigilância intensivos, não estão ocupadas.

Se contabilizar somente os pacientes infectados pelo coronavírus hospitalizados, as taxas de ocupação da rede assistencial de Manaus, pelas unidades de saúde pública, estão em 54% para leitos clínicos COVID, 37% para leitos de UTI COVID e 14% para sala vermelha COVID. Na rede particular, os índices são de 41% para leitos clínicos COVID e 18% para leitos de UTI COVID, enquanto a sala vermelha COVID está sem ocupação.

Público

A busca incessante por atendimento nas unidades de saúde elevou o tempo de espera para quase três horas, em média, dependendo da gravidade do quadro de cada paciente. No SPA do Galileia, no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, onde a demanda é alta, um vídeo mostra a sala de espera lotada e um paciente no chão sendo socorrido por outras pessoas do local.

Em outro SPA, do bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste da cidade, a longa fila para atendimento ia até o estacionamento. Muitos pacientes aguardavam na calçada a vez para conseguir entrar na unidade, nos últimos dias 10 e 11.

 

SPA Alvorada formou longas filas, no estacionamento da unidade de saúde

Ao procurar o hospital particular Hapvida Centro por estar com falta de ar, considerado um sintoma grave para os casos de Covid-19, a segurança Isamara Ferreira passou por uma via crucis. A superlotação na unidade e mais dezenas de casos similares ao dela, a fizeram desesperadamente trocar o serviço da rede particular pela pública na esperança de ser atendida. Mas a situação que encontrou no SPA da Alvorada não era menos alarmante.   

“Eu passei mal, com falta de ar e procurei o Hapvida Centro. Não demorei lá. Eu passei mais ou menos uma hora. Só que para todos para quem olhava era falta de ar. Tinha umas 100 pessoas a mais na minha frente, aí eu saí de lá e fui para o SPA da Alvorada, onde não demorei mais do que uma hora lá. Tinha muita gente, mas eu não passei mais de duas horas dentro”, relatou Isamara.

Mas nem todas as experiências foram ruins. Como a maioria dos pacientes com suspeitas de Covid-19 e Influenza A procura de imediato as unidades de saúde do Governo do Estado - SPAs, UPAs e prontos-socorros e hospitais -, as UBSs, administradas pela Prefeitura de Manaus, costumam ficar menos sobrecarregadas. 

“Ontem, fui em uma UBS para um procedimento. Lá, eles tiveram muito cuidado com os pacientes sintomáticos. Nos separaram dos demais pacientes e já encaminharam para o clínico-geral e depois fizemos o teste da Covid-19. Foi um atendimento muito bom”, afirmou a fonoaudióloga Michelle Salvador.

Particular

Nos hospitais particulares, os próprios profissionais da saúde registraram o fluxo ininterrupto de pacientes para atendimento e o longo tempo de espera nas filas. No Hospital Rio Negro, que atende clientes do plano de saúde Hapvida no Centro de Manaus, um funcionário informou que, no último domingo (9), mais de 150 pacientes aguardavam pelo primeiro atendimento e que a espera demorava 2h40.

Em suas redes sociais, o Hospital Santa Júlia, também da rede privada e que tem convênio com dezenas de planos de saúde, está desde a última quarta-feira (12) alertando seus pacientes sobre o aumento no tempo de espera no pronto-atendimento.

 

“Com o aumento no número de casos de pessoas com suspeitas de Influenza H3N2 e também da Ômicron, é natural o aumento do fluxo nos pronto-atendimentos. Por isso, o Hospital Santa Júlia segue uma classificação de risco para dar um atendimento mais ágil a todos os pacientes e assim, garantir o bem-estar de todos.”, diz a unidade particular em nota no Facebook e Instagram.

Até uma tabela com o prazo para ser atendido conforme a classificação de risco do paciente foi publicada pelo Hospital Santa Júlia, que também funciona no Centro. Se for “pouco urgente”, a espera é de duas horas; “urgente” é de uma hora; “muito urgente” aguarda por dez minutos; e caso seja uma emergência, o atendimento é imediato.

 

Mas em um comentário na postagem do Santa Júlia, a mãe de uma paciente revelou que a filha desistiu de receber atendimento médico depois de esperar por mais de cinco horas. Ela já não estava passando bem e decidiu ir embora.

Medidas

Para ter um controle maior sobre o número de infectados por Covid-19 e outras síndromes gripais, a Prefeitura de Manaus inaugurou, na última quarta-feira (12), o primeiro Centro Municipal de Testagem para desafogar as UBSs. Bastante procurado pela população, filas quilométricas se formaram em frente e dentro do pavilhão de eventos do Shopping Studio 5, no bairro Japiim, Zona Sul da cidade.

E somente nas primeiras quatro horas de funcionamento do Centro Municipal de Testagem para Covid-19, aproximadamente 1,2 mil pessoas compareceram ao local, conforme a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa). Devido a grande demanda, 51 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) intensificaram o trabalho e também já estão disponibilizando o teste.

Para ter mais recursos humanos para atender os pacientes, na última terça-feira (11), a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES) e Semsa-Manaus suspenderam, por 90 dias, a concessão de férias de todos os servidores das pastas por conta do novo avanço da pandemia da Covid-19.

Uma reorganização da rede de assistência foi anunciada nesta semana por Estado e Prefeitura, em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). O objetivo é dinamizar o fluxo de atendimentos desde atenção primária à saúde até a média e alta complexidade.

O Governo do Amazonas, responsável pela alta e média complexidade, garantiu o reforço da vigilância de campo, com visita técnica aos estabelecimentos de saúde nos municípios para orientar a população e os proprietários quanto ao cumprimento das medidas não farmacológicas determinadas pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), como uso de máscara, álcool gel e distanciamento social.

Já o município de Manaus, por meio da Semsa, que é responsável pela atenção primária na capital, definiu os serviços a serem aprimorados durante o período sazonal para Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Entre os quais estão: ampliação das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) em horário estendido, programação de ações com unidades móveis e atuação em áreas estratégicas que apresentam vazios assistenciais.

Posicionamento

O Canal 92AM entrou em contato com a SES-AM, a FVS-RCP e mais a Semsa-Manaus para saber a taxa de ocupação de leitos clínicos e de UTI, por parte das unidades de saúde do Governo do Amazonas, o atual fluxo de pacientes tanto em UBSs (Prefeitura) quanto em SPAs e UPAs (Estado) e quais medidas novas poderão ser tomadas para evitar um novo colapso.

Em resposta, a SES-AM informou que está “continuamente monitorando a taxa de ocupação dos leitos nas unidades da rede pública e que possui estratégias, dentro do Plano de Contingência Estadual de Combate à Covid-19, para ampliar o número de leitos, seja através de convênio com outras unidades ou com a reabertura do Hospital de Combate Nilton Lins”.

A FVS-AM esclareceu que os dados de ocupação hospitalar por Covid-19 estão disponíveis no Boletim Diário de Casos de Covid-19 no Amazonas. O mais atual é do dia 12, última quarta-feira, que já foi informado nesta reportagem.

Em relação a novos procedimentos para evitar um colapso, a FVS afirmou que “a principal arma de enfrentamento é a ampliação de vacinação contra a Covid-19”. O órgão reforçou o apelo às pessoas que não se vacinaram ou aquelas com atraso no calendário para que façam a adesão à campanha de vacinação com intuito de reduzir o impacto da introdução da variante Ômicron no Estado. 

Além da vacinação, a FVS disse ser importante manter as medidas não farmacológicas: o uso da máscara de proteção facial, manter o distanciamento social, lavagens das mãos com água e sabão ou a utilização de álcool em gel e evitar aglomerações.

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