Crise do oxigênio, vacinação, cheia do Rio Negro, queimadas, fome... Fatos que marcaram o ano de 2021 e deixaram a sensação para o amazonense de que 2020 ainda não tinha acabado.
O fim do ano pandêmico e a proximidade da vacinação traziam a esperança de um recomeço, mas a realidade fugiu totalmente do imaginário de cada cidadão. O Amazonas sentiu o nascimento de uma nova variante, ainda mais agressiva, conhecida como Gama, devastar famílias e colocar Manaus no epicentro da pandemia do mundo.
O Estado se viu com mais de 500 pessoas com Covid-19 esperando por leitos em UTIs e famílias inteiras formando filas quilométricas em busca de fôlego. Profissionais da saúde desesperados tiveram que improvisar, em busca de um pouco mais de vida.
A notícia sobre o colapso na saúde do Amazonas ultrapassou as barreiras territoriais e o mundo viu, diariamente, esse filme de terror causar medo e espanto. O pedido de socorro “SOS Manaus” ganhou braços amigos das forças armadas, famosos, estados e até países.
O Canal92am separou os fatos mais marcantes de 2021, no Amazonas. Confira!
Crise do oxigênio
Os primeiros dias de 2021 ficarão eternizados na memória do povo amazonense. No dia 14 de janeiro, o maior Estado da Região Norte se viu pequeno e sem reação diante da grave crise da falta de oxigênio. A falta de um plano de prevenção por parte das autoridades fez o amazonense vivenciar um dos piores momentos da história do nosso “Porto de lenha”. Pais, mães, amigos, vítimas dessa terrível doença, foram enterradas em valas comuns, sem identificação, sem respostas e com familiares impossibilitados de dizer adeus.

Pessoas se aglomeram desesperadas em busca de cilindros de oxigênio. (Foto: Bruno Kelly/Reuters)
A morte por falta de ar, a demora em adquirir miniusinas, uniu doações de cilindros de oxigênio vindas de várias partes do Brasil. Artistas como Tirulipa, Whindersson Nunes, Gusttavo Lima, Tatá Wernek e outros encabeçaram o ato de solidariedade e amor que motivou países como a Venezuela, que enviou uma carga terrestre de ar puro para centenas de amazonenses.

Famosos integrantes do "SOS Manaus". (Foto: Reprodução)
Diante da crise que descortinou a realidade da saúde e mostrou a fragilidade da vida, ainda tiveram aqueles que queriam lucrar com o sofrimento. Criminosos desviaram mais de 60 cilindros e venderam por valores de até R$ 6 mil.
Luto, medo da contaminação, colapso na saúde e restrições no dia a dia marcaram o primeiro ano de pandemia no Amazonas. E no dia 13 de março de 2021, no aniversário de um ano de pandemia, o amazonense chorava e contabilizava a perda de mais de 11,2 mil vidas.
Doses de esperança
Quatro dias após o colapso na saúde, as primeiras doses de esperança chegaram, no dia 18 de janeiro, após mais de seis mil vítimas da Covid-19 e mais de 230 mil pessoas infectadas.

Carregamento com as primeiras doses de vacina contra Covid-19. (Foto: Patrick Marques/G1AM)
Doadas pelo Governo Federal, o Amazonas recebeu 256 mil doses que foram destinadas à vacinação de profissionais de saúde, idosos que residem em instituições de longa duração, indígenas aldeados e pessoas com deficiência. Era o início da redução de mortes.

Indígena sendo vacinado em aldeia do AM. (Foto: Matheus Castro/G1)
A espera foi grande e a emoção de estar tomando uma dose de vida tomou conta de milhares de pessoas que registraram o momento da vacinação pelas redes sociais. O número de casos foi diminuindo, o choro dando lugar ao alívio, até chegar ao número zero de mortes.
Deixaram saudade
O surto da pandemia fez calar as lindas vozes do Amazonas. A cultura e o povo amazonense sentiram de perto as perdas de renomados artistas que encantaram o amazonas e o mundo, e ficarão eternizados na memória de gerações.
Dra. Rosemary Costa Pinto, diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). Era epidemiologista e foi uma das bússolas na interpretação dos dados da pandemia no Estado, durante toda a pandemia da Covid-19.

Dra. Rosemary Costa Pinto. (Foto: Edu Prado)
Roci Mendonça tinha uma das mais belas vozes do Amazonas. A cantora ganhou destaque como backing vocal do bumbá vermelho e branco.

Cantora Roci Mendonça, durante apresentação (Foto: Reprodução)
Rafael do Carmo Araújo, conhecido como Rafael Marupiara, foi compositor do bumbá Garantido e professor de geografia, deixando um grande legado para a cultura amazonense.

Líder indigena Davi Kopenawa e compositor Rafael Marupiara. (Foto: Reprodução)
A voz de Zezinho Corrêa ultrapassou continentes e o talento do cantor amazonense tocou o coração de gerações. Sua morte, deixou os fãs em silêncio, ouvindo apenas as batidas do hit ‘Tic Tic Tac’.

Zezinho Corrêa em frente ao anfiteatro da Ponta Negra. (Foto: Marinho Ramos/Semcom)
Paulinho Faria foi ex-apresentador do boi Garantido e conhecido por acumular vitórias com seu jeito de improvisar e uma narrativa riquíssima.

Paulinho Faria. (Foto: Reprodução)
Ícones que deixaram saudade e ficarão eternizados na memória de gerações.
Presidente “comprado”
Na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), após ter sido acusado de compra de votos e ter feito um “golpe orquestrado” para se eleger, o deputado estadual Roberto Cidade (PV) assumiu a principal cadeira do parlamento estadual, no dia 1° de fevereiro. Eleito com 16 votos, o parlamentar chegou a ser acusado pela então líder do governo, a deputada Joana Darc (PL), de ter pago R$200 mil a cada deputado. Na ocasião, a parlamentar não apresentou provas que confirmassem a compra de votos.
Seis meses após as acusações, a deputada Joana Darc (PL) voltou à tribuna da Assembleia, após licença maternidade, e com o filho no colo pediu desculpas por ter agido de forma “injusta e leviana” contra Cidade. Disse ainda que ao se tornar mãe teria alcançado outro grau de maturidade, que a fez pensar no que teria atingido com tais acusações.

Dep. Joana Darc com o filho ao lado do Dep. Roberto Cidade, na Aleam. (Foto: Divulgação)
O pedido de desculpas da mentira que expôs o parlamento amazonense em rede nacional, segundo a parlamentar, nada teria a ver com o pedido de cassação de seu mandato por quebra de decoro, solicitado pela ala de oposição na Assembleia Legislativa.
Aumento da gasolina
A saúde não foi o único setor que deixou os amazonenses desamparados. Em meio ao luto das famílias, o aumento da gasolina também foi sinônimo de preocupação. No dia 27 de fevereiro, o combustível ultrapassou o valor de R$5,00, o quarto reajuste apenas em 2021, que mais tarde chegaria a quase R$7,00.

Alta no preço do combustível causou protestos em todo o Brasil. (Foto: Leonardo de França/Midiamax)
Cheia histórica
Sorte não foi a palavra do amazonense, em 2021. Desde o começo do ano, as fortes chuvas foram mostrando sua força, até que, em junho, todo o Amazonas estava em estado de alerta. Cidades inteiras embaixo d’água, animais se afogaram, plantações foram destruídas, na cheia recorde dos últimos 100 anos.

Marcação da cheia histórica no Porto de Manaus. (Foto: Reprodução)
O momento era mais uma vez de solidariedade, e unir forças era essencial. A fim de não parar a vacinação e o atendimento nos estados atingidos, o Governo do Amazonas lançou a Operação Enchente e mais de 130 mil famílias receberam abrigo, anistia de dívidas, materiais de saúde, colchões e alimentos.

Comércios tiveram que se adaptar à cheia. (Fotos: Marcio James/WWF-Brasil)
O estado já estava em alerta, comércios começaram a fechar, ruas ficaram alagadas, pontes foram feitas para o transporte e o que ninguém esperava aconteceu: a cheia alcançou a marca inédita de 30 metros. O Centro de Manaus foi realmente banhado pelo Rio Negro e o fenômeno ganhou o mundo, virando até ponto turístico. Mais de 445 mil pessoas foram afetadas.

O fenômeno no Centro de Manaus virou ponto turístico. (Foto: Caroline Queiroz/CNN)
O nível da água só começou a diminuir nos últimos dias do mês de junho. A vazante se consolidou no dia 5 de julho.
Casos que marcaram o AM
O ano de 2021 registrou um aumento de 100% de casos de homicídio, sendo registrados, de janeiro a setembro, 754 homicídios, superando os números de 2020. O aumento foi de 14,76%, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP).
Em setembro, o sargento Lucas Ramon Silva Guimarães foi assassinado dentro de sua própria cafeteria, Praça14, a mando de Joabson Agostinho Gomes, dono do supermercado Vitória, por suposto envolvimento amoroso com Jordana Azevedo Freire, esposa de Joabson.

Sargento Lucas Ramon. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
O suspeito de efetuar os disparos, Silas Ferreira da Silva, foi preso dois meses depois, após a família de Lucas oferecer uma recompensa de R$ 40 mil para quem entregasse o criminoso. O crime segue sob investigação da polícia.

Jordana Freire sendo escoltada pela polícia. (Foto: Divulgação)
Fantasia de mau gosto
Em novembro, mais um caso chamou a atenção da mídia nacional e causou revolta nas redes sociais. Um homem usou uma camisa do Flamengo, com o nome 'Bruno' escrito nas costas e, nas mãos, levava um saco de plástico preto, com o nome Eliza. Nas redes sociais, a fantasia foi considerada uma apologia ao feminicídio, ao homenagear o assassino de um dos casos mais bárbaros do Brasil.

Postagem feita pelo Porão do Alemão, que indignou as redes sociais. (Foto: Reprodução)
Garimpo ilegal: a “corrida do ouro”
Em novembro, os holofotes se voltaram para o Rio Madeira, próximo ao município de Autazes, onde centenas de balsas e dragas atracaram em um único ponto do rio, para exploração em massa de ouro. A aglomeração chamou a atenção dos ribeirinhos, que denunciaram o crescente número de balsas chegando ao local. As autoridades tiveram que tomar providências. No total, 131 balsas utilizadas pelos garimpeiros foram apreendidas ou destruídas e algumas pessoas foram presas.

Garimpo ilegal no Rio Madeira. (Foto: Bruno Kelly/Greenpeace)

Equipamento de garimpo ilegal formam uma vila flutuante. (Foto: Bruno Kelly/Reuters)
A “corrida do ouro” não é uma pauta nova. Há muitos anos, pessoas de diversas partes do Brasil e do mundo vêm para a Amazônia em busca desse mineral tão precioso. Uns em busca de melhores condições de vida, alimento para dentro de casa, outros, riqueza e fama. Independentemente de suas intenções, a realidade é outra: enquanto a produção cresce, famílias inteiras adoecem ou morrem pela grande contaminação que essa atividade causa.
Desmatamento na Amazônia
Esse foi o ano em que a Floresta Amazônica mais queimou. Segundo dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), de agosto de 2020 a julho de 2021, a taxa de desmatamento da Amazônia Legal Brasileira (ALB) ficou em 13.232 quilômetros quadrados (km²). Os dados representam um aumento de 21,97% em relação ao mesmo período anterior, em desacordo com as promessas apresentadas pela comitiva do Brasil na 26ª Conferência do Clima em Glasgow, a COP26, na Escócia.

Parte da Floresta Amazônica desmatada. (Foto: Infoglobo)
Um desses descasos ocorreu no mês de abril, quando o delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva, líder da investigação que culminou em "apreensão histórica" de madeira ilegal na Amazônia e autor da notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, foi substituído do comando da pasta um dia após a denúncia feita ao STF.

Delegado da PF, Alexandre Saraiva. (Foto: Reprodução)

Ex-ministro Ricardo Salles, pivô da saída do delegado da PF, Alexandre Saraiva. (Foto: Reprodução/Twitter)
Saraiva acusou Salles de "organização criminosa" e por tentar "obstar investigação". O ministro teria atuado para proteger madeireiros ilegais e o acusado a desmatar e traficar 200 mil metros cúbicos de madeira. O material está avaliado em R$ 130 milhões.
© 2022. Canal 92 AM - Todos os direitos reservados