Manaus, 02 de June de 2026   |  

Fé que move eleitores: política amazonense segue onda evangélica para se fortalecer

| 26/02/2022 - 15:46
Por: Diogo Rocha
Foto: Arte/Canal 92AM

Aleam e CMM decidem homenagear coordenador político da Igreja Universal e comprovam que religião e política se misturam

O bispo Alessandro Paschoall tem sido disputado em homenagens pela Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e pela Câmara Municipal de Manaus (CMM). Coordenador político nacional da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Paschoall recebeu a medalha Ruy Araújo, nesta sexta-feira (25), no plenário da Aleam, em reconhecimento ao seu trabalho frente ao Grupo Arimatéia, criado pela Universal basicamente para orientar eleitores e despertar a “consciência política” neles.

Nesta mesma semana, a Câmara Municipal aprovou e publicou em seu Diário Oficial, na última quinta-feira (24), a propositura para conceder o Diploma de Cidadão de Manaus a Alessandro Paschoall “como reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à cidade de Manaus e sua gente”.

Duas honrarias em um curto espaço de tempo por duas Casas Legislativas pode ser explicado pela força e ascensão do eleitorado evangélico nos últimos anos. Conforme uma pesquisa do Datafolha, de janeiro de 2020, houve um aumento expressivo da população evangélica no Brasil, em que quase 30% de cidadãos declararam seguir essa crença.

O levantamento também mostrava um crescimento da institucionalização da participação evangélica na vida pública, especialmente na Câmara dos Deputados, que terá disputa nas Eleições deste ano. Em 2002, por exemplo, foram eleitos 42 deputados federais oficialmente identificados como evangélicos. Em 2018, esse grupo já saltou para 82.

E ter o apoio de lideranças evangélicas, como o próprio bispo Alessandro Paschoall, que sairá duplamente homenageado do Amazonas, é importante no jogo político. Afinal, ele coordena milhares de voluntários pelo País para, justamente, mostrar ao eleitorado devoto à Deus que fé e política devem se misturar. 

Devido essa evangelização da vida pública, um ano eleitoral como o de 2022, a separação que deveria existir entre política e religião em um Estado laico como o Brasil, fica cada vez mais corroída. Conquistar a força do eleitorado evangélico, que aumenta exponencialmente no País, virou tática comum entre novos e velhos candidatos.

Para o advogado, sociólogo e analista político Carlos Santiago, que preside a Comissão de Reforma Política e Combate à Corrupção Eleitoral da Ordem dos Advogados do Amazonas (OAB/AM), esse conceito de unir religião com política pode ser prejudicial para a democracia. Independente das crenças ou não de cada cidadão, as políticas públicas precisam ser voltadas para todos, declarou. 

“Há dois movimentos fortíssimos na esfera da conquista do poder dentro, por exemplo, do processo eleitoral em que muitas instituições religiosas acabam indicando nomes para disputar as Eleições, governos e também cargos no Legislativo”, observou Santiago, em clara referência a bispos e pastores, principalmente, que saltam dos cultos para os plenários das Casas Legislativas nas esferas municipal, estadual e federal.

Um exemplo caseiro é do pastor da Igreja Universal, em Manaus, o carioca João Carlos (Republicanos). Nas Eleições Municipais de 2020, ele foi o vereador mais votado para a CMM, com 13.830 votos, apesar de ter se candidatado pela primeira vez. E Carlos tem cumprido a cartilha da IURD de não separar política de religião. Ele já até promoveu um devocional, com a presença de fiéis e líderes evangélicos, dentro da Câmara Municipal.

Outros nomes

E não é apenas o vereador João Carlos que ganha a preferência do eleitorado evangélico. A Assembleia Legislativa do Estado e a Câmara de Manaus estão cheias de exemplos de políticos debutantes e veteranos eleitos graças ao apoio deste nicho da população.

Do lado da Aleam, podem ser citados dois deputados estaduais da atual legislatura. Um é Felipe Souza (Patriota), evangélico e Gideão e que após dois mandatos seguidos pela CMM obteve uma cadeira na Casa Legislativa estadual nas Eleições de 2018. Ele chegou a representar a Aleam na 5ª Conferência para agentes públicos e políticos cristãos da Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional, em 2019.

Outro deputado fortemente evangélico é João Luiz (Republicanos), autor da propositura que homenageou o coordenador político nacional da Igreja Universal, na última sexta-feira. Carioca com título de cidadão amazonense, foi recordista de votos quando se elegeu para vereador da CMM, em 2016, e posteriormente garantindo vaga na Assembleia, em 2018. Tanto na Câmara quanto na Aleam presidiu a Frente Parlamentar Cristã.

Pela CMM, a bancada evangélica é robusta. Entre os destaques estão os vereadores: Raiff Matos (DC-Democracia Cristã), que depois de largar a vida de levantador de toadas do Boi Caprichoso virou pastor e cantor gospel com dois álbuns lançados; Marcel Alexandre (Podemos), pastor do Ministério Internacional da Restauração; Wallace Oliveira (PROS), atual vice-presidente da Casa; Eduardo Alfaia (PMN), co-fundador da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Amazonas; Joelson Silva (Patriota), pastor da Assembleia de Deus; e Yoamara Lins (PRTB), pastora e uma das fundadoras da Comunidade Evangélica Internacional do Avivamento.

“Há ainda uma aproximação de muitos caciques políticos com as igrejas e as instituições religiosas. Todas essas movimentações objetivam, principalmente, maior espaço de membros destas instituições religiosas nas decisões do Parlamento e nas decisões de políticas públicas”, explicou o analista político.

Toma lá, dá cá

Mas nada sai de graça. Nem na fé. Carlos Santiago lembra que é comum muitas instituições religiosas serem beneficiadas para que os políticos que pertencem às alas evangélicas ou cristãs mantenham suas bases eleitorais. 

“É por via dos Poderes Legislativo e Executivo que as instituições religiosas acabam adquirindo ainda mais benefícios fiscais e regalias tributárias, além da defesa da liberdade religiosa”, disse o também advogado.

“É tão forte hoje a presença das religiões e, principalmente, das igrejas evangélicas na política que um partido político é controlado por estas denominações religiosas. Também dentro do Legislativo possui inúmeras bancadas declaradas evangélicas ou cristãs”, completou Santiago.

Alerta

O sociólogo Carlos Santiago alerta para os riscos de políticos religiosos serem mais comprometidos em agradar sua base eleitoral em detrimento de toda a população que representam quando eleitos. O bem comum e interesse da coletividade devem prevalecer, de acordo com o analista.

“Quando membros religiosos se apropriam de um partido em que a fidelidade à sua religião é mais forte do que as ideias do partido isso causa um desgaste na política. Isso enfraquece os partidos políticos”, declarou.

E, novamente, Santiago insiste para evitar que questões religiosas interfiram no trabalho da gestão pública. “Não se pode misturar religião com política. Religião com Estado. O Estado não pode ter uma religião e também não pode proteger uma religião. O Estado tem que ser laico e quem exerce atividade em instituições de Estado deve oferecer serviços e representar quem tem religião e quem não tem religião”, finalizou. 

E-mail: [email protected]

Fone: (92)99179-2465

© 2022. Canal 92 AM - Todos os direitos reservados