Manaus, 02 de June de 2026   |  

Apoio de Silas Câmara à Família Pinheiro em Coari e outros aliados fomenta rejeição na Assembleia de Deus

| 14/12/2021 - 12:49
Por: Diogo Rocha
Foto: Arte/Canal 92AM

Deputado federal não se importa em buscar força eleitoral em políticos envolvidos em polêmicas e suspeitas de corrupção

O deputado federal e líder religioso Silas Câmara (Republicanos) tem demonstrado que no jogo político formar alianças com adversários não é o caminho para vencer nas urnas. É preciso fortalecer os vínculos com aliados, mesmo quando esses estão envolvidos em escândalos sexuais, polêmicas e suspeitas de corrupção, como os membros da Família Pinheiro em Coari, município a 363 quilômetros da capital Manaus.

Mas parte dos membros da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Amazonas (IEADAM), onde Câmara é pastor junto com os seus irmãos Samuel e Jonatas, já não apoiam o parlamentar e nem concordam com as escolhas dele para aliados políticos. O Canal 92AM recebeu depoimentos de pessoas de dentro da congregação, que preferem se manter no anonimato para evitar represálias, afirmando que o deputado federal “abraça quem tem força”, independente de ser “bandido ou gente boa” para ter apoio e se manter no cargo.

“E quando ele abraça, a igreja tem que abraçar para dar apoio ao político [que forma aliança com Silas Câmara]. Ele [o deputado federal do Republicanos] abre mão de uns certos princípios por ajuda. Vamos, por exemplo, apoiar para o Senado o Eduardo Braga [atualmente senador pelo MDB-AM], que já disse milhões de vezes que não é para ajudar a Assembleia [de Deus] porque iríamos crescer demais e dar trabalho”, disse um membro da congregação.

“O problema é que a igreja vota por obediência, mas muitos não concordam de ter pessoas como o Silas [Câmara] como representante da igreja”, completou.


Irmãos Câmara ao lado do vereador Joelson recebendo a bênção, no auditório do Canaã

O desgaste da imagem do político Silas Câmara com a de pastor da Assembleia de Deus é tão grande que uma onda de revolta nas células da congregação se iniciou e pode ameaçar os planos do deputado para as Eleições de 2022. No Supremo Tribunal Federal (STF), o líder religioso ainda deverá ser julgado por supostamente comandar um esquema de ‘rachadinha’ em seu gabinete e que pode levar à cassação do seu mandato como deputado federal.

Em outubro deste ano, a Corte adiou, após pedido de vistas do ministro Kássio Marques, o julgamento de Câmara sobre a acusação feita por ex-funcionários e pelo Ministério Público de que o parlamentar desviou R$ 140 mil em verba pública, entre os anos de 2000 e 2011, ao recolher ilegalmente parte dos salários de secretários que nomeou. O processo contra o pastor da Assembleia de Deus é movido pela Procuradoria-Geral da República (PGR) há 20 anos, desde 2001.  

E a rejeição crescente do nome de Silas na congregação está se estendendo, inclusive, para outro irmão dele, o coronel da PM Dan Câmara, ex-secretário de Segurança Pública do Estado, que tem pretensões políticas. Uma possível queda no índice de aprovação de Silas Câmara entre as igrejas evangélicas, consequentemente, pode minar o projeto de Dan de iniciar uma carreira como deputado estadual. 

 

Mais depoimentos

 

Por segurança, nenhuma das pessoas da Assembleia de Deus ouvidas pelo Canal 92AM e que criticaram veementemente Silas Câmara teve sua identidade revelada e nem as zonas e áreas onde as igrejas estão localizadas em Manaus. 

“As igrejas já estão cheias do Silas [Câmara]. Não tem atitude condizente com as de nós cristãos, ele trata mal nossos líderes religiosos e agora já deram a missão para todos os pastores obrigarem os membros a elegerem o irmão dele, o Dan Câmara, a deputado estadual. No último evento no Canaã, vi muita gente discordar disso”, comentou.

“A Bíblia fala em não assentar na roda dos escarnecedores. O que mais vemos é o Silas fazendo isso. Eu não vou votar nele, como nunca votei nos meus oito anos de Assembleia. E nem por isso Deus me castigou. O pastor Jonatas é um homem de Deus, mas não voto e não vou votar em ninguém da Família Câmara, enquanto os políticos da família deles não se comportarem como verdadeiros homens de Deus”, criticou outro membro da IEADAM.


Silas Câmara ao lado do vereador Joelson e do irmão Jonatas, no auditório do Canaã

O portal Canal 92AM entrou em contato com a assessoria do deputado federal Silas Câmara desde sexta-feira passada, após outras tentativas frustradas. Não obtivemos respostas até o fechamento desta matéria sobre as alianças do parlamentar em Coari, que pediu publicamente apoio ao agora prefeito eleito Keitton Pinheiro antes do pleito suplementar no início deste mês, no município.

Más companhias?

Pastor da Assembleia de Deus em Manaus, Silas Câmara estava presente em um comício em Coari, no dia 2 de dezembro, às vésperas das eleições suplementares na cidade que elegeu o primo do ex-prefeito Adail Filho, o candidato Keitton Pinheiro (PP), ao cargo de prefeito, no último dia 5. No palanque do evento, o deputado federal evangélico ouvia bem de perto Filho esbravejar ofensas e acusações sem provas de tráfico de drogas e pedofilia contra o radialista e jornalista Ronaldo Tiradentes, tio do adversário de Keitton no pleito, Robson Tiradentes Jr. (PSC).

“Seu ex-traficantezinho de merda, estuprador de crianças, incestuoso e corno. Mas calma, pera ainda que a tua hora vai chegar. Ronaldo [Tiradentes], eu sei que você está me ouvindo porque você é meu fã. Eu já pensei várias e várias vezes em te encher de porrada, em te dar uma verdadeira surra do jeito que você merece. Mas graças a Deus, eu sou um homem equilibrado e jamais sujaria minhas mãos com um merda como você", disse em tom raivoso Adail Filho, que também acusou a Família Tiradentes de ser perigosa e capaz de tudo pelo poder.

A candidatura de Keitton à prefeitura de Coari também está envolta em polêmica após ele e Adail Filho terem perdido as cadeiras de vice-prefeito e prefeito, respectivamente, depois da reeleição do primo nas Eleições Municipais de 2020. Em outubro deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve a cassação de Filho e Keitton, decidida pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado (TRE-AM), por violarem a legislação, que proíbe um terceiro mandato consecutivo do mesmo núcleo familiar.

Durante o período de campanha nas eleições suplementares, a coligação do então candidato Robson Tiradentes Jr. (PSC) tentou anular o registro de candidatura de Keitton. O argumento era que Pinheiro, ao lado do primo, foi um dos responsáveis em causar o novo processo eleitoral em Coari e não poderia em tese disputar a vaga aberta na prefeitura da cidade. E com a empreitada jurídica mal-sucedida do adversário, Keitton acabou eleito com 53,24% dos votos (17.765 votos) e manteve a hegemonia da Família Pinheiro no Poder Executivo Municipal.

Força eleitoral e mais polêmicas

Em seu sexto mandato consecutivo como deputado federal, desde que chegou ao Congresso pela primeira vez em 1999, Silas Câmara (Republicanos) procurou ajudar financeiramente com emendas parlamentares o município de Coari, que segue como quinto maior colégio eleitoral do Amazonas. A ‘terra do gás natural’ perde em número de eleitores (49.702), entre os 62 municípios do Estado, somente para a capital Manaus (1.331.613 eleitores) e as cidades do interior Parintins (69.583), Itacoatiara ((67.270) e Manacapuru (67.504), conforme dados de 2020 do TSE.

Ainda no primeiro mandato de Adail Filho frente à prefeitura de Coari, o deputado enviou recursos, em 2019, que somados são de R$ 5.747.253,13, além de mais R$ 500 mil de emenda de bancada em 2009, mesmo quando o prefeito não era da Família Pinheiro. No total, foram R$ 6.247.253,13 em verbas e a solicitação de ações, como a implantação de agências bancárias, no município. 

E Silas Câmara parece não se importar em associar sua imagem pública, ligada à defesa dos princípios cristãos da doutrina evangélica, à Família Pinheiro em Coari independente das acusações contra seus membros. Em 2014, Adail Pinheiro, pai do prefeito cassado Adail Filho, foi preso quando cumpria seu terceiro mandato como chefe do Executivo Municipal acusado de exploração sexual de crianças e adolescentes. 

Quatro anos depois, o patriarca da família ainda foi condenado a mais de 57 anos de prisão depois que a Operação Vorax, da Polícia Federal, desarticulou em 2008 um esquema de fraudes em licitações que desviou milhões de recursos da prefeitura de Coari.

Em 2017, Adail Filho seguiu os passos do pai Adail Pinheiro e assumiu a prefeitura de Coari pela primeira vez junto com a irmã Mayara Pinheiro. Mas em 2019, o Ministério Público do Amazonas (MPAM) começou a investigar outro esquema criminoso supostamente articulado pelo núcleo familiar. Filho e Mayara teriam aumentado os próprios salários passando de R$ 17 mil e R$14 mil para R$ 26 mil e R$ 21 mil, respectivamente, de forma indevida.

Na época da descoberta deste escândalo, Mayara Pinheiro já tinha deixado o cargo de vice-prefeita para ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado (Aleam), em Manaus. Em 2019, ela foi eleita deputada estadual como a mais votada no Amazonas (50.819 votos), mostrando que a força política da Família Pinheiro se estende além do município de Coari.

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