Melhoria na formação dos condutores, estudos técnicos para sinalização das vias, efetivo maior de agentes de trânsito e investimento no transporte coletivo foram algumas das soluções apresentadas por especialistas
Os acidentes fatais no trânsito de Manaus nesta semana, de 7 a 12 de agosto, foram praticamente diários. Apenas nas últimas 24 horas, a imprensa registrou a morte de três pessoas em acidentes graves distintos por imprudência dos condutores. Na quinta-feira (11), o servidor da Seduc-AM, Alcinei Vale de Neto, caiu da garupa de uma moto e acabou esmagado por uma carreta na Avenida Rodrigo Otávio, no bairro Japiim, Zona Sul.
Neste mesmo dia, o motorista de ônibus João Carlos Gonzaga, 42, morreu após colidir a motocicleta que pilotava na traseira de um caminhão de carga em pane na Ponte Rio Negro, na Zona Oeste. Nesta sexta-feira (12), o mestre de obras Firmino da Conceição Silva, 50, não resistiu aos ferimentos depois que o motorista de uma picape o atropelou quando ia de bicicleta para o trabalho, no bairro Planalto, também na Zona Oeste.
De acordo com o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), o primeiro semestre de 2022 registrou 1.930 acidentes de trânsito na cidade de Manaus, sendo que 1.135 ocorrências foram envolvendo danos materiais. E até 19 de julho deste ano, se contabilizou 132 acidentes com vítimas fatais.
Ainda conforme o órgão, Manaus apresenta uma média de 200 casos de mortes no trânsito por ano, desde 2019. Foram 219 pessoas vítimas de acidentes com veículos em 2021. A capital do Amazonas registrou, segundo a Polícia Civil do Estado, também um aumento de 50% em mortes no trânsito nos primeiros oito dias de agosto, em comparação com o mesmo período de julho.
Mas a culpa por tantas mortes em acidentes com veículos nas ruas de Manaus está somente na imprudência dos motoristas ou no desrespeito às leis do Código de Trânsito Brasileiro (CTB)? Para dois especialistas consultados pelo Canal 92AM, os motivos que explicam o aumento destes índices vão desde a ausência de infraestrutura viária para comportar um fluxo intenso de carros, motos, ônibus e caminhões até à falta de uma fiscalização abrangente que evite a impunidade de condutores infratores.
“Manaus cresceu bastante, mas infelizmente a parte de infraestrutura viária não acompanhou e continua a não acompanhar. A frota de veículos aumentou muito e as vias continuam as mesmas. Então, em alguns pontos [da cidade] não foram levados em consideração o fluxo de veículos, de pessoas, de ciclistas, de motociclistas e etc. Esse é um grande problema que temos aqui [em Manaus]”, disse o especialista em trânsito Haniery Mendonça.
Uma sinalização correta nas ruas da capital amazonense para reduzir congestionamentos e manobras irresponsáveis de motoristas deveria sempre passar por um estudo técnico, segundo o especialista. Mendonça cita um trecho no Complexo Turístico da Ponta Negra, na Zona Oeste, em que ciclistas arriscam suas vidas por falta de um espaço adequado para transitarem em segurança.
“Era para ter feito um estudo técnico e detalhado [na Ponta Negra], mas fizeram de qualquer forma reduzindo o espaço do carro [na via] para colocar a bicicleta. E hoje a sinalização antiga está aparecendo, então, você não sabe mais o que é certo ou errado ali”, exemplificou.
A defasagem no efetivo de agentes de trânsito para fiscalizar integralmente as vias mais movimentadas de Manaus é mais um fator que ajuda no crescimento das infrações e acidentes. Outro problema, conforme Haniery Mendonça, está na preparação dos novos motoristas pelas autoescolas.
“Precisa ter um carinho e uma atenção maior com a questão da educação para o trânsito. Os centros de formação de condutores, que são as autoescolas, passam o básico [para os alunos]. Depois disso aí, você só verá campanhas efetivas mesmo na época do Maio Amarelo [mês de conscientização para a redução de acidentes de trânsito]”, criticou o especialista.
Conforme Mendonça, os bairros periféricos de Manaus apresentam falhas recorrentes no tráfego de veículos por carência de infraestrutura, sinalização e fiscalização. A questão primordial para evitar acidentes, entretanto, permanece sendo a conduta do motorista.
“Precisamos entender que o usuário do trânsito de uma forma geral tem também suas responsabilidades. A partir do momento que você tira a habilitação (CNH-Carteira Nacional de Habilitação), está ciente dos seus direitos e deveres. E o que acabamos vendo? Condutores avançando o sinal vermelho e fazendo retorno em lugares proibidos. Então, a fiscalização não vai dar conta disso e a engenharia [de tráfego] para evitar esse tipo de transtorno terá que colocar barreiras [nas vias], o que implica na situação do pedestre. O condutor tem que fazer a parte dele”, analisou.
Solução? Transporte coletivo
Ex-diretor-presidente do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), o engenheiro civil Manoel Paiva acredita que investimentos no transporte coletivo de Manaus irão reduzir o fluxo de veículos e, consequentemente, acidentes de trânsito. Somente na capital, de acordo com Paiva, circula 81% da frota de veículos de todo o Amazonas.
“Toda essa frota tem em torno de 52 a 53% da população transportada diariamente apenas por 1,6% [de ônibus]. Já começa aí a grande distorção porque a maioria da população, que mora na periferia, é mais pobre e mais excluída, só tem essa opção de se deslocar pelo transporte coletivo urbano. Os automóveis e caminhonetes, que correspondem a 64% da população, apenas 20% trafegam neste tipo de frota. Nós temos quase 30% de motocicletas, que é a segunda maior frota que circula em Manaus”, informou o especialista em transporte e trânsito.
O engenheiro afirmou que a Prefeitura de Manaus deve priorizar os usuários de transporte coletivo para combater o trânsito caótico e a má distribuição das frotas de veículos na cidade. Seria a alternativa menos dispendiosa.
“Isso mostra bem que, hoje, nosso trânsito é realmente muito complicado e requer uma ação prioritariamente de decisão [do Poder Executivo]. Quem eu quero atender? Quem depende do transporte [coletivo] ou do automóvel particular? Qualquer cidade que deu solução à mobilidade não foi dando prioridade ao automóvel [particular]. Até porque o investimento para dar prioridade ao automóvel [particular] necessitaria de vias muito mais largas, de grande velocidade e de maior capacidade. E isso custa mais. Então, o transporte público sempre foi o caminho”, afirmou Manoel Paiva.
O especialista também disse que o maior problema de mobilidade em Manaus se concentra em bairros da periferia localizados nas Zonas Norte, Leste e Oeste e no entorno da capital. E, na visão de Paiva, a melhoria do sistema público de transporte levaria à migração do motorista de veículo individual para o coletivo.
“O nosso transporte público é ineficiente. Ninguém está satisfeito. O usuário não está satisfeito, o não-usuário não está satisfeito, o empresário não está e a Prefeitura não está. Enfim, em todo o conjunto da obra ninguém está satisfeito com a qualidade do serviço”, reforçou.
Ele explicou que nos dois primeiros anos da pandemia da Covid-19, a frota de ônibus reduziu em Manaus devido à queda em mais de 50% da demanda de usuários e até o momento não voltou à normalidade. “Isso faz com que a frota [de outros veículos] aumente em toda a cidade e vai contribuindo para esse trânsito desordenado, caótico e engarrafado. São muitos carros para poucas vias”, explicou o especialista.
Manoel Paiva citou ainda medidas para elevar a qualidade do transporte coletivo: reativação de faixas exclusivas para os ônibus; implantação de semáforos inteligentes; retorno da fiscalização eletrônica; e aumento do efetivo de agentes de trânsito.
“Eu sempre defenderei a fiscalização como a principal ação para monitorar, aferir e dimensionar os resultados e avanços em qualquer programa e projeto de melhoria da qualidade na segurança viária das cidades. Sem fiscalização, vamos continuar contando as vítimas”, alertou Paiva, que atualmente é consultor em projetos de mobilidade urbana.
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